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    CADU!!!

por MARIA CLARA LUCCHETTI BIGEMER


                                            
           Sempre fui contra os preconceitos machistas dos homens que esperavam ansiosamente um filho para dar início à prole e olhavam com ar decepcionado a menina primogênita. São fonte permanente de horror para mim as histórias de civilizações e culturas que não recebem os bebês do sexo feminino, eliminando-os antes do nascimento.  Provoca-me desconforto interior o brinde italiano que sintetiza de forma perfeita o machismo latino e mediterrâneo: "Saluti e figli maschi!"

          Minha primeira filha é mulher e com ela aprendi a ser mãe e muitas mais coisas.  Deu-me uma neta, a primeira, que me ensinou a ser avó e que amo com ternura imensa.  Minha terceira filha é menina e minha segunda neta idem, sendo as duas fontes de orgulho e  ternura em minha vida.  Família de seis Marias - Maria Clara, a mãe; Maria Laura e Maria Cândida, as filhas; Maria Isabel, a nora; Maria Carolina e Maria Antonia, as netas -  a cultura feminina é um fato em nosso clã, onde voam plumas e purpurinas, e predomina a cor rosa.  E onde Ekke, o pai, e Carlos Frederico, o filho, estão em evidente minoria.

          Como explicar, portanto, como entender sobretudo, os sentimentos tão inusitados e fortes que vivi no último sábado quando nasceu meu primeiro neto, Carlos Eduardo?  Olhei-o e foi como uma torrente de doçura e sintonia que dentro de mim se derramava.  E tive a certeza de que aquele menininho tinha desde aquele primeiro olhar um lugar de honra em minha vida.

          Saboreando a alegria do nascimento de Cadu, perguntei-me: por que o amor é tão grande quanto já foi antes em outras ocasiões, mas ao mesmo tempo único e diferente?  Por que sinto que o amo tanto e com originalidade tão total, sentindo que ele não se sobrepõe a ninguém e apenas soma e multiplica, sem nunca diminuir nem dividir?  Por que esse serzinho tão pequeno e frágil,  que apenas deseja os braços e o seio de sua mãe, tem tal poder sobre o meu coração, sem um laivo de totalitarismo e imposição, mas apenas sendo o que é: um bebê recém nascido, filho de meu filho?

          Cadu nasceu na véspera da festa da Epifania,  quando a Igreja celebra outro recém-nascido.  Dele se disse ser a luz das nações. Aquele menino foi a revelação definitiva e total de Deus a toda a humanidade, mostrando o segredo de seu mistério: salvação e paz, justiça e redenção.  Para todos, para todas.  Às vésperas da epifania de Jesus, Cadu era nossa epifania.  Família, amigos, todos se debruçavam sobre seu pequeno rosto, apreciando-lhe os traços delicados e a pele cor de rosa.

          Ele nos revelava - e continua a fazê-lo - quem somos e o que somos chamados a ser.  Revela-nos que na Epifania maior que celebrávamos e da qual sua pequena e particular epifania era um luminoso sinal,  o amor divino derramava-se sem economia sobre um mundo tão sedento e tão conflitivo.  O rostinho de Cadu, adormecido no aconchego dos braços de sua mãe, era em si mesmo uma revelação: somos seres transcendentes e habitados pelo Espírito divino.  Em nossas narinas é soprado o vento santo que nos recria constantemente,  fazendo-nos sempre de novo inocentes e puros como essa criança.

          Como avó enamorada e feliz, minha meditação junto ao berço de Cadu foi um desfiar de desejos para sua vida que apenas inicia.  Desejei que seja bom e justo, atento aos pobres e infelizes, doce e cordial com todos e, sobretudo, com as mulheres.  Desejei intensamente que não se conforme com este mundo, e se comprometa na sua transformação.  Que lute, se empenhe, trabalhe para isso.

          Que brinque, corra, faça travessura e rale o joelho, chore, ria, se alegre muito, intensamente... Mas que no avesso da brincadeira leve a sério o que é para ser levado, louvando o que bem merece:  a força do homem, a beleza da mulher, a generosidade da Criação; respeitando tudo que vive, se move e existe, mesmo frágil, indefeso e ameaçado; servindo com alegria aos outros:  anciãos, crianças, adultos, todos, sobretudo, aos mais necessitados.

          Diante de Cadu recém-nascido, compreendi como são estéreis e carentes de consistência os comentários machistas que exaltam os exemplares masculinos da humanidade.  Pois o que é o homem sem a mulher?  E, por outro lado, o que somos nós mulheres, sem a diferença do homem?  A partir de agora, nossa família não encontra identidade sem Cadu.  Mas não porque seja menino, homem, macho.  E sim por ser Cadu, único e irrepetível; obra-prima do Criador, cuja forma foi quebrada e nunca mais poderá ser repetida; homem que, se Deus quiser, saberá e praticará a verdade consoladora de que "em Cristo não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, mas todos são um só.”  Obrigada, Cadu querido!



    Maria Clara Bingemer   teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco), entre outros livros. wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape

Copyright 2009 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária ( mhpal@terra.com.br )