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Juracy Andrade|
Hugo Cortez|
MEU CARNAVAL
Chega o Carnaval e, com ele, a tristeza de palhaço que vê o circo pegar
fogo. Fico surdo aos tamborins, cego à desnudez das mulheres e de nariz
tapado ao cheiro ácido do suor quente. É outro o Carnaval que tanto anseio. Não o de salões abarrotados de gritos
desconexos, nem desfiles que disfarçam de luxo a indigência do povo. Quero a
alegria dalma, arlequim bailando em meu espírito, o odor suave da colombina
afagando os meus cabelos. Quero a serpentina enlaçando fraternuras e
confetes caindo como estrelas nos telhados de meus sonhos. Quero o rei Momo Não irei a bailes ébrios de álcool, nem me atarei a cordões que me algemam a
liberdade. A mim pouco importa que, no Carnaval, homens se fantasiem de
mulheres e mulheres vistam-se como homens. O que ambiciono é mais ousado:
virar-me pelo avesso, trazer à tona aquele que sou e não tenho sido,
travestir-me de mim mesmo, da minha face mais real e que, no entanto, trago
mascarada nos demais dias do ano. É a loucura, essa loucura do sopro divino
do qual sou feito. É ela que pretendo expor nas passarelas, nu, sem Então, voarei alucinado pelas avenidas e, ao aterrissar no sambódromo,
provocarei um silêncio reverencial, aquela suspensão de todo respirar que só
as epifanias suscitam. A multidão em delírio aplaudirá o próprio êxtase,
embriagada de plenitudes. Não encharcarei minha solidão de cervejas, nem mergulharei no mar de espumas
brilhantes e ilusões estéreis. Serei insensatamente o clone de mim mesmo,
arrancando-me novo de velhas células. Porta-bandeira atrevido, exibirei na
escola de samba uma por uma de minhas quimeras, tão palpáveis quanto o amor
que dói no peito. Rasgarei a minha fantasia e, com os trapos, tecerei um
tapete de utopias, sobre o qual dançarei o mais ousado dos frevos, até que
amanheça em minha esperança. Gritarei como os náufragos ao avistarem terra firme e trarei o meu rosto
pintado com as cores do arco-íris, para que todos vejam que bani a tristeza
que me assalta ao aproximar-se o Carnaval dos incautos, essa demência
coletiva que satura os sentidos sem aplacar o desejo. Quero é festa, muita
festa, com pierrôs embevecidos frente às promessas sedutoras de odaliscas
virgens formando o cordão de madrugadas de silêncio, nas quais nem
respiração se escuta, só o ritmo imponderável do mistério. Frei Betto é frade dominicano, teólogo, escritor e autor de vários livros. Clique no nome para ir para a página do autor.
premiando o meu país de farturas e o corso da alegria atravessando as ruas
dos meus passos.
fantasias, puro como o mais belo dos anjos.