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RODOS E VASSOURAS NA BRIGA ENTRE CRISTÃOS EM BELÉM

por JURACY ANDRADE

 

 

Neste Natal, fomos brindados com uma cena nada edificante de dois bandos de clérigos brigando tendo como armas vassouras e rodos. O cenário foi a lavagem da igreja da Natividade, em Belém, na Palestina, suposto local do nascimento do Menino Jesus; hoje desbancado pelo Papai Noel nos novos natais do consumismo e de comemorações caracterizadas por espalhafato, formalismo, falsidade. Por que brigavam os clérigos? Recapitulemos. Os santuários cristãos na Terra Santa foram divididos pelos cruzados, de triste memória, entre as ramificações cristãs por ali preponderantes, sobretudo ortodoxos gregos, armênios e católicos romanos. Entre essas três igrejas está dividido o santuário da Natividade, cada uma com um pedaço. Mas a briga de rodo e vassoura foi somente entre gregos e armênios, que celebram o Natal na festa que chamamos de Epifania, mais popularmente Dia de Reis. Não que os católicos já não tenham se envolvido em escaramuças no passado. A polícia palestina teve de ser acionada para apartar e acalmar aqueles santos homens.

Recapitulemos mais. No século 4º da Era Cristã, a Igreja Romana aceitou gostosamente tornar-se religião oficial do Império Romano, contrariando toda a pregação de Jesus Cristo e as práticas das primitivas comunidades cristãs. As consequências desse equívoco nos perseguem e escandalizam até hoje. Com a consolidação e institucionalização do papado (sem base evangélica ou na tradição), o bispo de Roma foi se tornando uma espécie de imperador, principalmente com a cisão do Império entre Roma e Constantinopla e o rápido declínio da banda ocidental, a romana. Os bispos foram transformados em príncipes. Os imperadores convocavam concílios e perseguiam, a ferro e fogo, aqueles que discordavam de suas opiniões, os chamados hereges.
Nada surpreendente que aquelas assembleias e comunidades evangélicas (ecclesia, em grego e latim, igreja, em português) fossem se transformando em aguerridas e exclusivistas instituições, cada uma dona absoluta da verdade, formando-se assim a Igreja Católica Romana, a Ortodoxa Grega (que gerou a Ortodoxa Russa), e mais tarde, do século 15 em diante, as assim ditas igrejas protestantes. A partir do século passado, facções que se intitulam neopentecostais, descambaram para uma teologia da prosperidade, com gordos negócios e prósperos “apóstolos”. Renegam assim a pregação do próprio Cristo e a de Lutero e outros reformadores, que se levantaram contra a simonia, a venda de indulgências pela Cúria Romana e a desbragada corrupção de costumes na hierarquia católica romana, incluindo o papa.

Então, essa briga de clérigos cristãos, que deveriam estar unidos na celebração do nascimento de Cristo, é café pequeno, como se dizia antigamente.
O que devemos, todos os cristãos, é apoiar e viver todos os movimentos pela unidade dos cristãos e por uma volta aos autênticos princípios do Evangelho e da tradição apostólica. Daí uma recordação é devida ao aniversário de 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação – Perspectivas, do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, um frade da Ordem dos Pregadores, hoje com 83 anos de idade. O livro teve grande aceitação sobretudo em nuestra Latinoamerica, tão marcada por desigualdades sociais ainda mais aprofundadas pelas ditaduras militares da época. A partir dele surgiu a chamada Teologia da Libertação, que desagrada profundamente ao Vaticano, sob o comando do papa Wojtyla, devoto do Opus Dei, e agora do Papa Ratzinger. Sempre se vendo como infalíveis e donos da verdade, esses papas renegam o Concílio dos anos 1960 e a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (1968), que inspiraram o livro de Gutiérrez e tantos dos apoiadores da Teologia da Libertação, como dom Helder Câmara, Leonardo Boff, dom Oscar Romero (arcebispo de El Salvador assassinado em 1980 pela direita pró-EUA). Há mais de 30 anos, o Vaticano só nomeia para a América Latina (e o resto do mundo) bispos conservadores, reacionários mesmo, muito mais funcionários carreiristas da Cúria Romana que sucessores dos apóstolos de Cristo. As exceções são raras. Os resultados dessa política são trágicos para as comunidades cristãs.

A Teologia da Enxada, do profeta recém-falecido José Comblin, é uma prática inspirada na Teologia da Libertação. Quanto mais o Vaticano bate nela, mais ela cresce e frutifica. O Concílio e a Conferência de Medellín são documentos eclesiais aprovados por centenas de bispos, dentro da tradição apostólica. Já as “instruções” de Ratzinger, quando chefiava a congregação herdeira da Inquisição preparando sua escalada papal, representam tão somente suas opiniões pessoais e idiossincrasias. Os cardeais vão terminar falando sozinhos. Amém!

Juracy Andrade é jornalista, com graduação em teologia pelas Facultés Catholiques deRoma e Lyon (França)